domingo, 10 de maio de 2015

MENDES E CAMAQUÃ: UM RARO CASO DE AMOR

Jorge Alberto Portanova Mendes Ribeiro Filho deixou de viver no início da noite deste sábado, 9 de maio.  Advogado por formação, político por natureza Mendes Ribeiro tinha 60 anos, 40 deles vividos entre cargos e mandatos políticos. Todos no seu PMDB.

Há uma semana, no último sábado, 2, estive com Mendes Ribeiro. Como nas últimas visitas ao Hospital, onde ele se internara há seis meses, só eu falei. Muito duro ver alguém que vivia do verbo, dele se privar.  No quarto, de pouca luz e com o silêncio quebrado apenas pelo frequente e incômodo barulho do respirador artificial, ele estava na mesma posição da última visita que eu tinha feito, há 20 dias. Na conversa, mais uma vez meus agradecimentos por tudo que ele havia feito de bom a mim e pela terra em que vivo.

Digo conversa, pois eu sempre tive nessas visitas a sensação de ser escutado por alguém além das cuidadoras zelosas que ali se revezaram. Nesta última ida, ao me despedir, passei a mão na cabeça dele. Veio à mente a vez em que colocamos na capa do nosso extinto jornal A Visão uma foto dele fazendo um sinal positivo, logo após ter sido operado pela primeira vez. Isso foi lá por 2006. Em cima da imagem, a manchete: “Tudo bem com o nosso deputado”.

E lembrei-me também de um monte de coisa, como aquela minha primeira viagem à Brasília; era também a minha primeira viagem aérea. Foi ao lado do Mendes, que passou boa parte do trajeto me assustando, dizendo que o  avião estava com típicos sinais de iria cair. Depois, conversava com os demais e dava aquela gargalhada cheia, longa. Eu um repórter iniciante, ele já com nome feito depois de ser vereador de Porto Alegre, deputado estadual, chefe da Casa Civil do governo Britto e deputado federal.

E seguiram-se tantas e tantas jornadas ao lado deste cara do bem. Deste cara que tinha a exata noção do quanto a política e um político podem proporcionar felicidade às pessoas comuns. Pelo seus movimentos em Brasília, Mendes calçou quilômetros e quilômetros de ruas interior afora deste estado, ajudou a construir escolas e ginásios, postos de saúde, facilitou o trabalho de pequenos agricultores, que receberam, por suas emendas, equipamentos, ferramentas e máquinas. E foram tantos e tantos outros benefícios fabricados pelo seu trabalho público.  

Eu tenho muita coisa boa para contar e escrever sobre esse camaquense. Sim, camaquense nascido em Porto Alegre. Do seu amor por essa terra e pela sua Costa Doce, falo como testemunha, com convicção:  esse sentimento transcendia o corriqueiro discurso. Testemunhei muitas passagens, encontros, diálogos do Mendes Ribeiro. Talvez uma hora dessa eu os recupere e os coloque num único registro. Mas por hora, cabe lamentar a perda, iniciada no melhor momento dele e causada por essa covarde moléstia.  

Mas me consola o fato de que nas vezes que o visitei, nesta reta final, inclusive na do último sábado, deixei o Hospital São José tranquilo. Talvez as conversas realmente não tenham sido unilaterais.

A relação de Mendes com Camaquã foi um raro caso de amor. Nunca um político forasteiro se doou tanto a essa terra. Nunca a gente dessa terra acolheu tão bem um “estrangeiro”. Talvez um dia aconteça sinergia parecida. Mas levará muito tempo e pode até ser parecida. Jamais, porém, será igual.    

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