quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A FOTOGRAFIA DE RUA: A ALMA DOS DISTRAÍDOS

                                                                                                                                Por Ana Bede/Fotógrafa
A fotografia de rua capta basicamente o que há de mais comum: os pequenos momentos. Os pormenores do cotidiano, aqueles a que ninguém dá muita confiança, nem se lembra, muito menos se importa. Uma mulher grávida que resolve tocar um piano no Mercado Público, um menino com o olhar mais doce e azul em sua infinita pobreza em frente a uma rede de fast-food, anjos na cidade de pedra, um gaúcho de metal encobrindo um coração que pulsa forte. Apenas detalhes.  

Há pessoas que passam a vida toda ao nosso lado e não conseguem perceber nossa essência, muito menos a essência de certas particularidades. Porque não percebem esses detalhes, essenciais detalhes. Não captam, não intuem. Não vêem a gravidade ou a beleza das coisas se elas não estiverem evidentes. Por outro lado, há pessoas, nem tão próximas de nós, que conseguem observar estes detalhes de algum nosso momento, conseguem captar a alma de algumas nossas circunstâncias, de alguns lugares, das coisas, das horas. E o fazem por não estarem distraídos nas expressões, nos olhares e nos modos de andar alheios. E o fazem porque gostam dos outros a ponto de os outros não os aborrecerem de tédio quando estão a praticar as atividades mais comuns.É o caso dequando saio sem rumo a procurar algo, o não sei o quê - apaixonada por captar esses pequenos grandes momentos, tão comuns no dia-a-dia, mas tão raros nas percepções. Gosto de pessoas - particularmente, de observá-las. Sou do tipo que senta em um banco de praça, ou de um shopping, e fica o dia todo apenas a observar quem por ele passa. 

Minha mente faz composições, monta e arranja cenas. Vê sempre tudo enquadrado, como se meus olhos fossem uma câmara. Então começo a fotografar todas aquelas desatenções, todas as coisas que passam despercebidas.O que faço é a chamada fotografia de rua, um método um tanto despretensioso, mas original por causa da espontaneidade das fotos. Sem composições padronizadas, se criam imagens a partir do quase nada. Tudo o que se tem é o que se vê. E é excitante justamente porque é algo que não podemos controlar, como o movimento, os ângulos ou a luz. Talvez seja o método em que mais se precisa da velha e boa intuição. Ou devo dizer talento, que não sei se o tenho, ainda busco.

 Na fotografia de rua, a única coisa que podemos controlar é a lente e o momento do clique, nada mais. A fotografia de rua nem dá margem para uma escolha do fotógrafo acerca do quê fotografar. Ele simplesmente fotografa porque as coisas estão acontecendo naquele instante. E a escolha do instante de fotografar é muito mais um sentimento do que uma escolha.Obviamente, para um bom resultado é fundamental que se tenha uma câmara boa e rápida. Isso significa evitar atraso entre a pressão e o clique do botão do obturador. 

Se a câmera é rápida, então se consegue exatamente a imagem desejada e não o que aconteceu um décimo de segundo depois.A essência da fotografia de rua é captar os momentos, e os momentos acontecem em um piscar de olhos, às vezes literalmente. A fotografia de rua eterniza sutilezas que durariam apenas um segundo. E já há muito se diz: os pequenos momentos....não há nada maior do que eles, não? Pela primeira vez exponho não meu trabalho mas meu prazer, fotografias de rua que nunca foram divulgadas. Espero que gostem.


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