quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A frase comprometedora

Foram mais de duas horas de incontáveis nãos. “Não podemos”, “não devemos”, e por ai vai. Na verdade nem precisava montar uma coletiva para anunciar o que uma nota de algumas linhas informaria. Assim foi a entrevista dos seis procuradores da República, ontem, em Porto Alegre, para anunciar nove nomes supostamente envolvidos no esquema que desviou R$ 44 milhões do Detran. Entre eles, está o da governadora Yeda Crusius (PSDB).

Mas até se entende as negativas dos procuradores quando eram indagados pelos repórteres que queriam o que imaginavam que teriam: informações. Mas foram cautelosos demais em nome do chamado sigilo de Justiça. Mas tranqüilo, afinal, faz parte do show.

Agora, seria diferente e o ato poderia ter tido uma conotação bem mais legítima não fosse uma frase disparada por um dos homens postados na bancada. Pelo tom intimador, ecoou pesada. Pela carga de raiva contida, pareceu ter saído de adversário.

“Não haverá moleza para esses réus”, disse Adriano Ralai. Teria sido traído esse procurador pela emoção de ter em sua frente tantas câmeras e microfones? Talvez. Mas ela comprometeu. Comprometeu por sua precipitação. Os nomes citados somente serão réus se assim a Justiça definir. Comprometeu pelo tom bravateiro, pela falta de sensibilidade, já que em jogo está o nome da autoridade máxima do Estado, e pela dúvida gerada. Afinal, por que somente “esses réus” não terão moleza? Com os outros tem sido diferente?

Por mais que queiramos acreditar piamente na isenção política de determinadas instituições, em certas horas vacilamos. E quando há escancarados interesses político-partidários gravitando no núcleo dos acontecimentos, essas dúvidas afloram mais. Portanto, são inevitáveis, aos mortais alijados destes misteriosos labirintos do poder, as ilações.

Se Tarso Genro (PT), pré-candidato a governador, não fosse ministro desta área, talvez essas dúvidas não existissem. É certo que teoricamente o Ministério Público Federal (MPF) é descolado do órgão de governo que cuida dos temas do Judiciário. Mas também estamos cansados de saber que nem sempre a prática respeita a teoria.

E ai, olhamos no retrovisor e vemos a deputada federal Luciana Genro (PSol) apresentando denúncias contra o governo estadual, baseadas em vídeos que disse ter tido acesso. Seriam gravações em poder do MPF. Luciana é filha do ministro, candidato à vaga que hoje pertence à denunciada. Não, não queremos entrar nos perigosos e às vezes ridículos embalos das teorias conspiratórias, mas certas evidências são verdadeiras tentações.

Se Yeda Crusius, deputados, ex-secretários cometeram crimes, que tenham punições adequadas. Mas em primeiro lugar que esses atos venham de fato à luz, com detalhes, com as devidas atribuições. E era isso que se esperava na barulhenta coletiva. Não sendo assim, a promoção de ontem gerou uma incômoda impressão: a de que quem bolou, não queria matar apenas fazer sangrar.

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