segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Política Kafkiana

Coluna Prestes: desrespeito à memória
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“Não deixem que manchem a história deste partido”. Esta foi a frase de fechamento das inserções gratuitas do PC do B, que foram ao ar na TV e no rádio, durante a semana. A advertência é tão absurda quanto a cara de pau do ex-ministro Orlando Silva (da mesma sigla), pedindo que se apresente provas da sua promiscuidade com as ONGs. Este PC do B que está ai nada tem a ver com o Partidão, aquele liderado pelo questionável Luiz Carlos Prestes, que lutou brava, mas imbecilmente pelo (ainda bem) fracassado sistema Bouchevique no Brasil. As ideias do Partidão eram um perigo, mas eram revestidas de um certo heroísmo inocente.Tivessem tomado o poder, a história seria outra. Mas enfim, ficou o mito.

A comparação da história atual e passada dos partidos políticos do Brasil são perfeitamente encaixáveis à obra mais famosa do alemão Franz Kafka. Em “A Metamorfose” (1912), Kafka conta o processo físico e psicológico de mudança de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que ao despertar se transformara num horrendo inseto. Rejeitado, Gregor se isolou no quarto, com suas inúmeras patas cabeludas. Seu quarto passou a ser seu mundo. Há muitas interpretações literárias para este tesouro kafkiano. Para mim, o principal recado de Kafka foi de que a metamorfose de Gregor tem como razão sua conveniência. Fora do quarto, a vida lhe era pesada demais. Também chama atenção ao longo da obra – e gera dó - a permanente preocupação de Gregor com a forma como os familiares passam a vê-lo.


Os partidos que estão aí se transformaram em monstros. O problema é que não se deram conta disso. Consequentemente, não se importam como a sociedade os vê. Vejam o PT: a concessão zero dos seus primeiros dez anos de vida deu lugar a uma invejável tolerância a tudo e a todos que possam ameaçar sua zona de conforto. Tenho saudade quando eu debatia abertamente com os representantes do Partido dos Trabalhadores. Eu adorava expor suas incoerências, seu radicalismo e sua atrasada forma de pensar. Mas isso perdeu a graça. É passado. A defesas do PT é outra, agora. Alguém pode dizer que na verdade o PT evolui ao neutralizar seu radicalismo e ampliar suas alianças. Não acredito. Ainda acho que uma derrota imaculada, às vezes, pode ter mais valor que uma conquista carregada de culpa.
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“Quando usam a também mitológica imagem de Getúlio Vargas, os atuais “trabalhistas” profanam os restos mortais da nossa história”
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O PC do B contemporâneo é um legitimo caso de exploração indevida da memória. Os comunas da década de 20 do Século passado, que morreram de fome, malária ou a tiros, empunhando sua bandeira, não mereciam isso. O PTB é assim também. Quando usam a também mitológica imagem de Getúlio Vargas, os atuais “trabalhistas” profanam os restos mortais da nossa história. Não há uma linha sequer que associe o pragmático, porém firme Getúlio, com este PTB fisiológico e frouxo de hoje.

Ninguém é obrigado a ser imutável. Por consciência ou circunstância, mas fundamentalmente pelo direito individual, nos transformamos. O proibido é não assumir a condição de que sim, somos diferentes do que éramos a dois, dez, cinquenta anos atrás. Negar isso é desrespeito – com nós e com aqueles que nos cercam.
Assim como os pais de Gregor, que de amor passaram ter repulsa pelo filho, a sociedade brasileira vem atingindo seu ápice de ojeriza a esses remendos partidários e aos seus operadores. E não é para menos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Planejamento zero

Dos políticos locais de certo relevo, um me chama atenção pela vontade que possui de ser prefeito. É um desejo público, forte e antigo. Isolo aqui as reciprocidades passadas e diferenças presentes da nossa convivência. Mas isso não vem ao caso. Mais do que odiado ou querido, preciso ser leal. O acho treinado burocraticamente. Já politicamente, é um ninja. É também probo. Não tenho dúvida de que esse perfil reverteria em vantagens locais. Mas a questão é que ele não será prefeito. Pelo menos não nos próximos cinco anos.

Falo do eletricitário aposentado e vereador Ludgero Marques. Sua condição é uma prova próxima da falta de inteligência e de planejamento partidário. Ele é do PMDB, partido cuja propensão para automutilação impressiona, o faz diferente. Marques é vítima, mas também algoz deste histórico processo interno. O mesmo veneno que Marques ajudou a fabricar para sobreviver ao longo da militância, hoje ele prova. Não é o único.

Visto de longe, é surpreendente ver um partido que manda numa prefeitura não ter candidato à reeleição. De perto, as explicações aparecem. No caso de Ludgero Marques, a soma da fragilidade partidária à combinação de três fatores foram cruciais: o primeiro deles é não ter tido a simpatia de João Machado, líder local de maior influência da última década. O segundo foi a fracassada troca de partido que fez em 2002, quando ajudou Antônio Britto a achar que era maior que o PMDB. O fogo amigo o acusou e ainda lembra deste arroubo de infidelidade. O terceiro fator chama-se Ernesto Molon, que não fez força alguma neste seis anos para ter um sucessor correligionário.

“E essa carência de estratégia não é apenas peemedebista. O PP sofre disso, o PDT também”

Evoco o caso de Ludgero Marques porque ele se adéqua exatamente onde esta coluna quer chegar: é deprimente a pobreza de renovação ou fortalecimento de nomes da política local. E isso somente se dá porque os partidos trabalham errado. Erram os integrantes das executivas e dos diretórios ao focarem suas forças apenas na promoção de um nome ou do chefe maior. Quando começarem a explorar gradativamente potenciais quadros, as siglas ficarão mais competitivas. O que acontece é o contrário: se queima no nascedouro. E essa carência de estratégia não é apenas peemedebista. O PP sofre disso, o PDT também. É só olhar quem são os nomes destes partidos na última década e meia. Não tenho outra maneira de classificar isso se não de estagnação ou retrocesso.

Agora, em véspera de eleição, não adianta os partidos quererem compensar os equívocos. Até a metade do ano que vem, muitos salvadores serão lançados ao vento. Mas repito: esse é um trabalho meticuloso, que demanda tempo. Por aqui, só existe um partido que fez isso bem entre uma e outra eleição: foi o Partido dos Trabalhadores. Se o PT e José Carlos Copes não se arrependerem até a próxima primavera, os resultados podem ser surpreendentes - inclusive para eles

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