segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Boate Kiss: a obrigatória compensação

  
Numa loja central da abafada Santa Maria de janeiro um homem insiste em comprar os sinalizadores de R$ 2,50 a unidade. O vendedor argumenta dizendo que para o que ele queria o produto adequado custava R$ 70,00. “Eu sei o que estou fazendo”, responde o músico entre risadas e com jeito de especialista. Quatro dias depois, um desses sputniks é aceso e cospe fagulhas no isolador de plástico colocado no forro da boate. O rapaz que os comprou era um dos integrantes da banda musical que anima a festa. 

Água mineral é jogada sem sucesso contra o fogo, extintores instalados nas paredes próximas do palco são arrancados às pressas. Mas não funcionam, pois quinze dias antes daquela festa o pó dos cilindros tinha sido esgotado numa brincadeira adolescente durante um aniversário comemorado ali.
O jeito era correr. Também não dava. Na saída planejada apenas para evitar que frequentadores saíssem sem pagar, um funcionário ainda tenta obrigar a gurizada desesperada a pagar antes suas comandas. Isso não foi decisivo, mas ajudou no extrato final. E quem sabe quantos ali se livrariam de respirar aquele venenoso cianureto da espuma, que se espalhara depressa por aquele ambiente enegrecido.
   
Tudo conspirou para o desfecho daquele estonteante amanhecer de 27 de janeiro, que começou bem antes. Servidores públicos negligentes, incompetentes e irresponsáveis (ou seriam também corruptos?) aprovaram o funcionamento da boate, mesmo que ela estivesse sempre na ilegalidade. O alvará de funcionamento dos bombeiros expirará há 5 meses.
A sequência de desbaratinos custou duas centenas e meia de vidas e estraçalhou a felicidade de outras milhares, as quais por toda a vida chorarão suas ausências. Se uma dessas situações citadas acima não tivesse existido a tragédia talvez fosse minimizada a um susto a ser contado entre risos nos dias seguintes na faculdade. Mas não foi. Uma falha completou decisivamente a outra e o ciclo trágico se fechou.

Se o poder público não teve a capacidade de evitar esse desastre, mesmo sendo essa sua obrigação, agora tem a obrigação de oferecer ao menos uma compensação digna por essas perdas. E essa compensação atende pelo nome de justiça. As investigações da Polícia Civil indiciaram 28 pessoas. Já no inquérito que o Ministério Público enviou à Justiça a lista foi reduzida a sete. Nunca e nada vai estancar a sangria dessa gente, que dormia com a certeza que os seus filhos se divertiam com segurança. Se redimir disso, tampouco o estado conseguirá. Mas tem o poder para ao menos arrancar da garganta desses familiares esse nó atravessado com gosto de impunidade, que neste 27 de janeiro completa um ano.
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Alex Soares  

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